quinta-feira, 21 de outubro de 2010
O Brasil nos olhos de uma criança
Pude entender naquele momento, enquanto meus olhos tentavam penetrar a alma do menino, que ele era mais uma vítima de um sistema social opressor e individualista. Enquanto existem crianças estudando nos melhores colégios particulares, recebendo de seus pais inúmeros brinquedos caros, outras já trabalham para poder se alimentar. Enquanto nós, muitas vezes, desperdiçamos comida e a jogamos fora, outros correm nos lixos para comer nossos restos. Enquanto uns têm mansões, outros têm como moradia as ruas, as pontes, os viadutos. Enquanto poucos posssuem condições finaceiras para consultar um bom médico particular, muitos morrem nas intermináveis filas do SUS sem receber nenhum tipo de atendimento. Enquanto aquele indiozinho parecia um adulto, ultrapassando a etapa mais bonita da vida, outros aproveitam,intensamente, a infância.
Quando tudo isso irá mudar? Pode soar um tanto utópico e exagerado, mas eu e você, leitor, temos um papel importante e decisivo na tentativa de reverter esse quadro de injustiças sociais: temos o poder do voto, poder para escolhermos políticos com propostas concretas, que sejam autênticos representantes do povo. Além disso, temos o direito e o dever de reivindicar a participação da população nas decisões governamentais e de exigir a implantação de políticas públicas eficazes que garantam maior eqüidade social. Não podemos perder a esperança de um Brasil mais justo, pois somente quando atentarmos para nossa capacidade de transformar através da ação e da contestação e para o imenso poder de nossas vozes, teremos a oportunidade de conseguir um futuro digno para nosso país, em que todos usufruam dos mesmos direitos. Talvez, assim, possamos ver as crianças brincando, estudando, tendo esperanças, sorrindo com um olhar sonhador e brilhante, enfim, vê-las apenas sendo crianças, deixando para trás um Brasil desigual refletido para mim, naquele inesquecível domingo de verão, nos olhos do indiozinho. (Texto redigido em 2008)
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Ciclismo em Porto Alegre: uma alternativa possível ( parte 2)
Ciclismo em Porto Alegre: uma alternativa possível ( parte 1)
sexta-feira, 19 de março de 2010
Reflexões...
Eu comecei a assinar Carta Capital, muito criticada por alguns pelo seu posicionamento mais a esquerda. O fato é que o editorial dessa semana do jornalista Mino Carta fez com que eu passasse a respeitar ainda mais a revista. Além de fazer um jornalismo sério, comprometido com a análise e com o aprofundamento dos temas que se propõe a trabalhar em suas reportagens, não tenta ampliar seu mercado consumidor com o tal ideal picareta de jornalismo imparcial.
Não acredito em jornalismo isento, em mídia imparcial e objetiva, idéias que muitos veículos de comunicação ainda insistem em defender. Não dá pra acreditar nisso e tenho certeza que já foi o tempo em que o público engolia essa máxima. Assim como qualquer indivíduo, o jornalista também tem seus valores e seus princípios. No momento de relatar um fato, fazer uma reportagem, ele não conseguirá se despir de tudo aquilo que constitui o seu caráter e suas crenças para realizar um jornalismo objetivo. Sem falar ainda que, para além de sua subjetividade, o jornalista está submetido à política editorial de uma empresa.
Quando alguém observa um acontecimento, há muito mais que dados factuais. Cada um verá o fato de uma maneira diferente, conforme a sua subjetividade. É claro que com isso não estou defendendo a relativização. Sei que apesar de não existir nenhuma possibilidade de imparcialidade no relato jornalístico, é preciso que haja a busca por isso, chegando-se o mais perto da fidelidade e da objetividade, por que se não vira zona e a incapacidade do total distanciamento se torna uma desculpa para se fazer um jornalismo antiético. Mas esse é outro assunto no qual não vou me deter agora, pois dá muito pano pra manga e daria pra escrever outro texto.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Para refletir...
Reuniões familiares. Casas enfeitadas. Árvores. Fartura. Amigo Secreto. Troca de presentes. Papai Noel. Comidas gostosas. Muita bebida. Roupas bonitas. Frases de fé, amor e paz. Isso é o que logo vem a mente quando se pensa em Natal, no entanto, será esse o verdadeiro sentido dessa celebração?
O dia 25 de dezembro foi escolhido para que se comemorasse o nascimento de JESUS, mas em seu aniversário, ELE raramente é lembrado. A história de seu nascimento – significado real dessa data – é diferente do Natal que se tem comemorado. Enquanto se tem fartura e riqueza, o nascimento de JESUS lembra pobreza, simplicidade e humildade. Enquanto a maioria das pessoas se reúne em suas casas e esquece que muitos estão precisando de ajuda e de afeto, o gesto de DEUS de enviar sue filho a terra expressa amor e preocupação com a humanidade.
O Natal verdadeiro, ao contrário daquele que é festejado pela maioria, tem JESUS – e não Papai Noel- como personagem principal. Esse dia deve remeter a ações e sentimentos como amor, ajuda ao próximo, redenção, amizade, simplicidade, desprendimento, doação. Infelizmente, porém, assim como há anos atrás quando muitos não hospedaram Maria e José para que JESUS pudesse nascer, ainda hoje, pessoas continuam negando lugar a JESUS. Maria e José procuravam abrigo e só conseguiram uma estrebaria como quarto. JESUS, o filho de DEUS sem pecados, que veio ao mundo para salvar a todos, nasceu no lugar em que ficavam os animais; a manjedoura – onde esses se alimentavam – foi seu primeiro berço.
E a história se repete...Até hoje as pessoas o negam. Em seu aniversário, muitos nem pronunciam o seu nome, não lhe oferecem presentes, não o procuram. Até hoje, JESUS é colocado em segundo plano, ignorado.
E mais um dia de Natal chegou... A festa, como todo ano, já está pronta...Mas mudar é possível...Nesse dia que, costumeiramente, o real espírito natalino é esquecido, desejo, sinceramente,que cada um possa relembrar, festejar e viver o verdadeiro Natal, a história e o nascer do puro amor: JESUS CRISTO!
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Um escritor na pior
Quando ainda era apenas Eric, um jovem indiano membro da polícia britânica na Birmânia, larga o emprego, devido ao ódio que criou pelo imperialismo, e decide seguir a carreira literária. Para isso vai à Paris e, desempregado, hospeda-se em um hotel pra lá de duvidoso, que ao invés de cinco estrelas, tem é uma centena de percevejos. Decidido a retratar o universo dos excluídos, o aspirante a escritor passa a viver nesse lugar, e a buscar alternativas de emprego no submundo. E é assim que nasce o pouco conhecido “ Na Pior em Paris e Londres”, o livro que lançou Eric Arthur Blair sob o pseudônimo de George Orwell, um dos maiores escritores do século XX.
Muito se fala sobre a Revolução dos Bichos e sobre 1984, mas quase nada é dito sobre essa obra. Escrita no final dos anos de 1920 foi rejeitada por diversas editoras, até ser lançada em 1933. O motivo principal da rejeição era o assunto pouco bonito e o modo como Orwell descreveu a pobreza e refletiu sobre ela, utilizando uma linguagem chula para a época, valendo-se de ironias e chocando a muitos com as críticas ferrenhas destinada às classes mais bem nutridas.
A não-ficção de Orwell, que mistura narrativa documental e jornalística com as técnicas e a linguagem literárias, começa em Paris. O escritor se aloja em um hotel barato da Rue du Coq d'Or e se propõe não só observar a pobreza, mas a vivenciá-la, conhecendo os moradores da rua pobre, fétida e barulhenta da capital francesa. Aos poucos, são apresentados aos leitores vários personagens desse ambiente. Figuras excêntricas, como Charlie, um jovem de 22 anos que discursa sobre suas experiências amorosas e gasta o pouco que tem em bordéis e bistrôs, ajudam a descortinar o universo que pretende revelar.
Depois de ter gasto quase todo o dinheiro e sem os bicos de professor de inglês que costumava conseguir, o narrador se depara com a falta de recursos, de moradia e com a fome. Começa a penhorar as roupas, a pular de um hotel a outro e a procurar emprego junto a um amigo russo, antigo garçom. Passa, então, a trabalhar como lavador de pratos de hotel, em uma rotina frenética de 15 horas diárias em cozinhas sujas, exercendo atividades automáticas e subumanas. É nesse momento que ele faz uma análise sobre essa função – os escravos do mundo moderno. Traz, ainda, idéias que expressam a sua veia socialista e questiona a utilidade da profissão que exerce, algo desnecessário que existe para agradar e dar luxo aos ricos.
Após tentar a sorte em Paris, sem nenhum êxito, Orwell retorna à Inglaterra devido a uma proposta de emprego. Ao chegar lá, porém, nada sai como planejado. O trabalho esperado não sai, o dinheiro acaba e ele se vê em uma situação ainda mais perto da degradação: passa a viver como mendigo. É em Londres que o autor dorme ao relento, em albergues públicos e privados, faz amizade com moradores de rua e conhece o modo como esses conseguem ludibriar a lei do país que criminaliza a mendicância. Conhece e descreve a saga desses homens que precisam pular de alberque em alberque, por causa dos horários e das restrições de vezes que podem dormir em cada um. Retrata a procura diária por algo para comer, dependendo da caridade de igrejas e instituições, das quais possuem uma repulsa exagerada, e mostra, ainda, a desagradável dieta de uma xícara de chá e de duas fatias de pão com margarina a que estão sujeitos.
O primeiro mendigo que Orwell, realmente, conheceu bem foi Paddy, um tipo característico dos milhares que vivem na Inglaterra. Jovem de 35 anos, desempregado há dois, cheio de sentimento de autopiedade. Como muitos outros, os assuntos que conversa são a vergonha e a ruína de ser mendigo e a melhor maneira de conseguir uma refeição. Ele incorpora as peculiaridades dos excluídos, vivendo sem futuro e planos, subnutrido e já sem nada que o fizesse pensar além de o que comer e onde dormir, limitado em suas perspectivas pela vida desumana que leva.
Uma das figuras mais interessantes do livro é Bozo. Diferente dos outros retratados pelo narrador, esse homem – um grafiteiro de calçada – reflete sobre sua condição, sobre a política e sobre o mundo que está a sua volta e têm, até mesmo, noções básicas de astronomia. Lê jornais e faz charges críticas sobre acontecimentos atuais, considerando-se acima dos mendigos. A autocomiseração, para ele, não existe, pois havia construído uma filosofia própria que dizia não se importar de viver na rua, desde que não estagnasse, pensando somente em o que comer e em catar baganas caídas do chão. Para ele, era possível pensar, refletir, filosofar e ser feliz, mesmo sem dinheiro. Apesar de exercer sua atividade como pretexto para esmolar, via-se como um artista.
Essas são algumas das histórias que constroem a narrativa de Orwell. Na pior em Paris e em Londres é permeado de reflexões lúcidas e, ao mesmo tempo, chocantes: “Quando você se aproxima da pobreza, faz uma descoberta que supera algumas outras. Você descobre o tédio, e as complicações mesquinhas e os primórdios da fome, mas descobre também o grande aspecto redentor da pobreza: o fato de que ela aniquila o futuro”. O autor descarta o distanciamento e o ar de superioridade, imerge na realidade que quer contar. Sem preconceitos, que aliás ele afirma ter perdido depois de conhecer o modo de vida dos pobres e mendigos, ele vai tentando se desfazer das idéias do senso-comum. Não aceita a visão dominante das classes médias e altas sobre essas pessoas e questiona o porque da existência dos excluídos, ao invés de tratá-los apenas como vagabundos e malandros.
Nas 245 páginas que o compõe, o livro tem a brilhante capacidade de familiarizar o leitor com o ambiente que retrata, de fazê-lo, nem que somente nos momentos de leitura, pensar no outro. E esse outro ele apresenta, mesmo sob condições degradantes, como um igual a qualquer um, separado apenas pela hierarquia social. Alguém com solidariedade imensa, capaz de dividir o único pedaço de pão que terá para comer durante o dia com aquele que não tem nada.
Talvez o mais triste de se constatar ao ler essa obra é que, após mais de oitenta anos, ela continua atual. Até hoje, a sociedade se mostra incapaz de absorver os excluídos do sistema capitalista. O que George Orwell afirmava a respeito da indiferença e da ignorância dos cultos e intelectuais em relação aos indigentes – os que ,teoricamente, deveriam ser os mais conscientes a respeito dessa situação- ainda persiste. Ao desconhecerem e estarem distante da realidade dessas pessoas, as classes mais altas se consideram superiores e, também, oprimem e rejeitam a plebe, com medo de que a liberdade dela possa ameaçar o seu bem-estar.