Em um domingo como muitos outros fui, junto à minha família, almoçar em um restaurante na praia do cassino, mas nesse dia algo diferente aconteceu. Ao sairmos do restaurante, avistamos três crianças índias vendendo objetos artesanais,o que é muito comum nessa praia na época de verão.Porém, um delas, um menino em especial,me impressionou. Ele era lindo, entretanto, naquele rosto tão jovem já havia marcas de profundo sofrimento. Percebi, ainda, que seu olhar era vazio e que ele possuía uma face triste e cansada. Minha família e eu nos aproximamos e brincamos com ele, mas não houve sequer o esboço de um tímido sorriso.Seus olhos negros, perdidos, cheios de tristeza e de melancolia, denunciavam, apesar da tenra idade, a amargura de alguém sem expectativas quanto ao futuro. Sua vida não era mais a de um garoto, pois já pesava sobre ele responsabilidades muito grandes.
Pude entender naquele momento, enquanto meus olhos tentavam penetrar a alma do menino, que ele era mais uma vítima de um sistema social opressor e individualista. Enquanto existem crianças estudando nos melhores colégios particulares, recebendo de seus pais inúmeros brinquedos caros, outras já trabalham para poder se alimentar. Enquanto nós, muitas vezes, desperdiçamos comida e a jogamos fora, outros correm nos lixos para comer nossos restos. Enquanto uns têm mansões, outros têm como moradia as ruas, as pontes, os viadutos. Enquanto poucos posssuem condições finaceiras para consultar um bom médico particular, muitos morrem nas intermináveis filas do SUS sem receber nenhum tipo de atendimento. Enquanto aquele indiozinho parecia um adulto, ultrapassando a etapa mais bonita da vida, outros aproveitam,intensamente, a infância.
Quando tudo isso irá mudar? Pode soar um tanto utópico e exagerado, mas eu e você, leitor, temos um papel importante e decisivo na tentativa de reverter esse quadro de injustiças sociais: temos o poder do voto, poder para escolhermos políticos com propostas concretas, que sejam autênticos representantes do povo. Além disso, temos o direito e o dever de reivindicar a participação da população nas decisões governamentais e de exigir a implantação de políticas públicas eficazes que garantam maior eqüidade social. Não podemos perder a esperança de um Brasil mais justo, pois somente quando atentarmos para nossa capacidade de transformar através da ação e da contestação e para o imenso poder de nossas vozes, teremos a oportunidade de conseguir um futuro digno para nosso país, em que todos usufruam dos mesmos direitos. Talvez, assim, possamos ver as crianças brincando, estudando, tendo esperanças, sorrindo com um olhar sonhador e brilhante, enfim, vê-las apenas sendo crianças, deixando para trás um Brasil desigual refletido para mim, naquele inesquecível domingo de verão, nos olhos do indiozinho. (Texto redigido em 2008)
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quinta-feira, 21 de outubro de 2010
sexta-feira, 19 de março de 2010
Reflexões...
“Carta capital expõe claramente a sua preferência, ao contrário de quem afirma isenção e eqüidistância para confirmar a aposta na parvoíce da platéia”, afirma o jornalista italiano Mino Carta no editorial da revista dessa semana a respeito da preferência do impresso por Lula frente a Serra. Achei de muito bom gosto. Sinceridade com o leitor e não dissimulação.
Eu comecei a assinar Carta Capital, muito criticada por alguns pelo seu posicionamento mais a esquerda. O fato é que o editorial dessa semana do jornalista Mino Carta fez com que eu passasse a respeitar ainda mais a revista. Além de fazer um jornalismo sério, comprometido com a análise e com o aprofundamento dos temas que se propõe a trabalhar em suas reportagens, não tenta ampliar seu mercado consumidor com o tal ideal picareta de jornalismo imparcial.
Não acredito em jornalismo isento, em mídia imparcial e objetiva, idéias que muitos veículos de comunicação ainda insistem em defender. Não dá pra acreditar nisso e tenho certeza que já foi o tempo em que o público engolia essa máxima. Assim como qualquer indivíduo, o jornalista também tem seus valores e seus princípios. No momento de relatar um fato, fazer uma reportagem, ele não conseguirá se despir de tudo aquilo que constitui o seu caráter e suas crenças para realizar um jornalismo objetivo. Sem falar ainda que, para além de sua subjetividade, o jornalista está submetido à política editorial de uma empresa.
Quando alguém observa um acontecimento, há muito mais que dados factuais. Cada um verá o fato de uma maneira diferente, conforme a sua subjetividade. É claro que com isso não estou defendendo a relativização. Sei que apesar de não existir nenhuma possibilidade de imparcialidade no relato jornalístico, é preciso que haja a busca por isso, chegando-se o mais perto da fidelidade e da objetividade, por que se não vira zona e a incapacidade do total distanciamento se torna uma desculpa para se fazer um jornalismo antiético. Mas esse é outro assunto no qual não vou me deter agora, pois dá muito pano pra manga e daria pra escrever outro texto.
Eu comecei a assinar Carta Capital, muito criticada por alguns pelo seu posicionamento mais a esquerda. O fato é que o editorial dessa semana do jornalista Mino Carta fez com que eu passasse a respeitar ainda mais a revista. Além de fazer um jornalismo sério, comprometido com a análise e com o aprofundamento dos temas que se propõe a trabalhar em suas reportagens, não tenta ampliar seu mercado consumidor com o tal ideal picareta de jornalismo imparcial.
Não acredito em jornalismo isento, em mídia imparcial e objetiva, idéias que muitos veículos de comunicação ainda insistem em defender. Não dá pra acreditar nisso e tenho certeza que já foi o tempo em que o público engolia essa máxima. Assim como qualquer indivíduo, o jornalista também tem seus valores e seus princípios. No momento de relatar um fato, fazer uma reportagem, ele não conseguirá se despir de tudo aquilo que constitui o seu caráter e suas crenças para realizar um jornalismo objetivo. Sem falar ainda que, para além de sua subjetividade, o jornalista está submetido à política editorial de uma empresa.
Quando alguém observa um acontecimento, há muito mais que dados factuais. Cada um verá o fato de uma maneira diferente, conforme a sua subjetividade. É claro que com isso não estou defendendo a relativização. Sei que apesar de não existir nenhuma possibilidade de imparcialidade no relato jornalístico, é preciso que haja a busca por isso, chegando-se o mais perto da fidelidade e da objetividade, por que se não vira zona e a incapacidade do total distanciamento se torna uma desculpa para se fazer um jornalismo antiético. Mas esse é outro assunto no qual não vou me deter agora, pois dá muito pano pra manga e daria pra escrever outro texto.
Apesar de eu me simpatizar com a esquerda, confesso que o que me faz assinar essa revista não é isso. O que me fez escolher ela a Veja, Época ou IstoÉ, é a superioridade na qualidade da informação e a sinceridade para com o leitor. Acho que isso dá credibilidade à revista, pois todos que a estiverem lendo já saberão quais são as idéias que ela defende. E o mais importante: isso não a impede de fazer jornalismo. Esse posicionamento não faz com que o foco da revista seja o ataque ferrenho ao tucanato e a puxação de saco de Lula. Até por que nessa mesma edição a revista traz uma reportagem sobre a Bancoop e uma uma forte crítica a Lula com relação à desigualdade de tratamento do governo com as prisões do italiano Cesare Battisti e dos dissidentes cubanos em greve de fome. Acredito que esse seja o caminho para a prática de um jornalismo comprometido com o interesse público, objetivo primeiro da profissão que parece já ter sido esquecido pela maioria dos que a exercem.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Desabafo
Hoje, ao sair de casa por volta das nove e meia da manhã, presenciei uma cena que me deixou chocada. Quando passava na Avenida Ipiranga com a Santana, avistei homens da prefeitura em seus macacões azuis retirando os pertences de moradores de rua do canal do arroio Dilúvio e colocando em uma caminhonete, sob a escolta atenta de vários guardas municipais, devidamente fardados e armados. Eram pedaços de papelão, sacos plásticos, sofás velhos, panos que deviam servir de cobertor para a proteção do frio e espumas, que talvez fossem a cama daquelas pessoas que não tem lugar para dormir.
Impotente, a única moradora de rua que vi naquela hora – de aproximadamente 30 anos - perguntava se aqueles homens iriam levá-la dali também e para onde ela iria. Nervosa, ela falava, mas os funcionários continuavam, mecanicamente, a desempenhar sua função e nem eles e nem os guardas pareciam ver o protesto daquela mulher suja e invisível. Mas a mim, eles enxergaram e, quando estava chegando perto do local , abriram espaço para que eu pudesse passar pela calçada.
Foram só alguns segundos que contemplei esse episódio. Além de mim, outros transeuntes paravam para ver o desenrolar da história. Naquele momento, comecei a chorar ao ver a preocupação e o desespero daquela moradora de rua. Aquilo que, para prefeitura, era o lixo que enfeia e suja a cidade, para ela, eram os únicos pertences que possuía. Me indignei ao constatar, mais uma vez, como os problemas sociais são tratados em nossa sociedade capitalista. A prefeitura, ao invés de tentar encontrar meios para minimizar o sofrimento e solucionar a situação degradante em que se encontram os moradores de rua, prefere esconder o lixo que eles juntam – marcas visíveis da presença de uma chaga social.
Na verdade, a prefeitura só está de acordo com um pensamento dominante, só está fazendo o que esperam que ela faça. A maioria das pessoas não tem nenhum interesse em mudar o status quo. Nessas horas, sempre me lembro do sociólogo Zygmunt Bauman que falava que para existir o belo tem que existir o refugo e que, no capitalismo, a exclusão e a marginalidade de alguns é necessária para que os sistema se sustente.
É melhor esconder, é mais confortável fazer de conta que o problema não existe. É preferível tirar aquilo que está estragando a paisagem para longe dos olhos, para que nós, os bem nascidos e bem nutridos, não tenhamos que nos incomodar vendo a cidade suja. Ou para que não sejamos abordados, no caminho para o trabalho ou na sinaleira, por pedintes mal cheirosos e inconvenientes. Infelizmente, é essa a sociedade pós-moderna, onde a hipocrisia é dominante e onde a beleza visual do espaço urbano vale mais que uma vida. Não mais que a vida dos seus membros produtivos, mas mais que a vida dos pobres coitados que estão dormindo nas praças, nas calçadas e até mesmo, no arroio dilúvio.
E o que mais me entristece, é que por mais que eu proteste, por mais que eu denuncie, eu também colaboro para esse estado de coisas. Eu, por mais que me revolte, não tenho como viver fora desse sistema hegemônico, corrupto e injusto, que ao invés de valorizar o homem , só o desumaniza.
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